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Fazendo miniatura de caminhão para trazer uma carga de boas recordações!

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 UM POUCO DE HISTÓRIA

Ivan Gouveia[1]

As coisas que fazemos, quer boas ou não, ficam de alguma forma pregadas à nossa existência. Por mais que nos esforcemos, sempre há reminiscências de coisas que emergem para nos lembrar do que fomos ou do que jamais conseguimos ser. A palavra nostalgia nunca expressa tudo o que nos toma quando tentamos tocar o tempo que nos escapou das mãos.

                                                                                                                         Ivan Gouveia

 

Antigamente... coisas perdidas no tempo.

 

O sol sempre nascia encabulado como as gentes do meu convívio naqueles tempos. Algumas se deram conta de que era preciso se adaptar e buscar mais para alicerçar o futuro. Outras ficaram lá no passado mesmo, que até hoje, na era da comunicação, ainda se recusam a aprender o alfabeto. Nas cidadezinhas ou na roça, a tecnologia chegou, mas nem sempre ficou no coração daqueles que realmente amam o campo. Aqueles que se deleitam com a roça verdejante. Creio que melhor viver é este. Mas falando de mim, não fiquei nem lá, nem cá. É possível que me tenha perdido no tempo e esteja, ainda agora, encabulado com as tantas mudanças que o tempo trouxe. Sou o caipira tecnologicamente modificado.

Desde de muito cedo, o trabalho bateu à minha porta. O trabalho eu recebia de bom grado, mas o que pesava mais eram os repetidos ataques de asma. Eles me acompanharam até a idade adulta. Hoje já não incomodam mais. Tomei todo o tipo de garrafada e fui vítima de uma dúzia de simpatias. Meu pai se apegou a dizer que eu era um defunto fresco (fresco no sentido de recém morrido, cuidado! Hein!), que ia ter de fazer o caixão a qualquer momento. Que eu jamais chegaria a ser um adulto. O osso esterno chegou a começar se deformar por conta dos intensos surtos de asma. Quando não estava acamado, estava no trabalho.

Não freqüentava escola e os brinquedos quase inexistentes. Estes, se existiram, foram os que  minha pouca criatividade e experiência puderam construir. Como quase a maioria dos meninos, apeguei-me pelos carros e caminhões e os buscava construir do que estivesse ao alcance. Fosse de madeira, lata ou barro, sempre tinha se suprir o desejo de ganhar algum brinquedo pronto. Como fui detalhista desde muito cedo, o tempo de brincar era passado, muitas vezes, confeccionando os brinquedos. Mas já isto se tornara a brincadeira em si. Às vezes, nem um simples e enferrujado alicate havia e as chapas, cortadas à faca, eram moldadas com os dedos mesmo. Não raro resultava em cortes nas mãos que, por conseqüência, traria momentânea proibição do ato de inventar brinquedos. Uma vez achei um pequeno alicate no meio de restos de uma casa queimada. Estava só a parte de metal, o resto tinha derretido. Mas foi uma esplêndida ferramenta por um curto período de tempo. Um dia foi lá em casa um conhecido de meu pai que, ao ver meu alicate, disse estar precisando de um. Meu pai não titubeou e foi logo entregando aquilo que representava melhoria no meu teimoso amassar de lata. Não obstante, se quisesse, o homem pudesse comprar um milhão de alicates, ele levou o meu, que era único. Esse menino besta tem que parar com essa mania de amassar lata, disse ao visitante. Meu pai não me permitia pegar as ferramentas dele e, quando eu desrespeitava isso, a bronca era sempre muito severa. O cinto de couro era muito utilizado.

Meu pai era do tipo que elogiava muito os filhos dos outros, presenteando-os, até. Ao passo que se escarnecia dos próprios filhos perante seus amigos, parentes ou outros. Ele dizia: "Meus filhos são uns bestas!" Outros adjetivos prediletos dele, quando se referia aos próprios filhos eram: bocó, jacu, tonto, burro, caipira (o que eu sou até hoje), bobo, etc. Só mais tarde, percebi que ele temia que um dia um filho soubesse mais que ele. Só não entendo isso até hoje, pois ele sempre esteve no meio de gente de algum conhecimento e posse. Ele próprio chegou a ganhar muito dinheiro nesta vida, mas jogava fora com carros, extravagâncias diversas, muito cigarro, mulheres, bebidas e em prol do agrado de outrem. A própria família era tratada com desdém.

Eu sempre precisava estar pronto para o trabalho. Tinha já uns dez anos de idade e a escola ainda parecia ser um sonho impossível. Via outros garotos que pareciam muito felizes a caminho da escola portando cadernos e lápis em pequenas sacolas de açúcar. Eu ficava lá para o meu lado, como quem nasceu diferente dos outros. Desprovido dos diretos de estudar e de ter amigos. Não trabalhava como um escravo, mas produzia por um adulto em condições normais de trabalho. Lá o sol só era acanhado quando se levantava. Já alto, ele queimava o lombo sem nenhuma ponta de dó. A enxada era pesada e a plantadeira manual tinha altura desconfortável e também era pesada demais, mas o trabalho precisava ser feito. Podia esquecer os brinquedos, viesse a escola e bastaria. Não veio antes dos quatorze anos de idade. Quando veio, foi sob intenso desconforto e muito constrangimento.

Aos quatorze anos era muito jovem para ingressar no antigo MOBRAL, ao passo que já era passado da idade para ficar na primeira série do primário. Uma alternativa era a chamada Educação Integrada, que reunia pessoas que estivessem nesse meio-termo, mas que já soubessem ao menos ler. Não era meu caso. Sabia lá o á-é-i-ó-u, mas creio que fosse tudo. Não quiseram me admitir em nenhuma dessas turmas. A indignação fervia-me a alma. Lembro que briguei muito, quase sem esperanças. Chorei, até. Pois tinha agora a minha própria sacola de açúcar com um lápis e um caderno, mas ainda não tinha conquistado o direito a um banco escolar. Então, enfim, consegui admissão na chamada Educação Integrada (espécie de supletivo que compreendia os quatro anos do ensino primário). No começo não consegui acompanhar o ritmo de ninguém por lá, pois não conseguia copiar o que era passado no quadro. Mas quando terminou aquele ano, eu era considerado o que sabia mais na turma, de acordo com a nossa professora e os exames. Simplesmente devorei os livros, como quem, em passando fome a vida toda, quer pôr para dentro toda a comida que vê. Então já podia me ingressar na quinta série. Grande coisa? Para mim era. Sei que tem muitos outros brasileiros que passaram por isso e seguiram em frente. A gente acaba descobrindo que o segredo do negócio é nunca desistir.

Nessa época trabalhava um pouco menos e, em baixo do soalho, montava minha oficina. Por esse tempo, contava com uma faca sem cabo, um alicate velho, alguma madeira e uma abundância de embalagens de lata no lixo pelas ruas. Saía, então o meu Mercedes-benz 1519 trucado e com carreta de três eixos. Muitos outros modelos, antes desse, jamais foram fotografados.

O material dos pneus era a madeira da a´rvore Amburana. Muito boa para quase todos os trabalhos com madeira. A noção de escala era apenas visual. Este era mais ou menos 1:7. Mas até dá para calcular com mais precisão, visto que a calota da roda dianteira era o fundo de uma das tão conhecidas latas de óleo de cozinha. Hoje em dia raramente encontramos óleo de cozinha em latas. O pára-brisa era feito de garrafa plástica de refrigerante. O assoalho da carreta era de forro comum de madeira. Foi o primeiro modelo que consegui comprar tinta para a pintura da cabine.

Nessa época eu já tinha trabalhado como ajudante (chamavam pejorativamente de badeco,  espécie de trabalhador que faz tudo o que lhe mandam) por quase um ano numa oficina de mecânica diesel. Lá, aprendi muito sobre motores e mecânica em geral. Conhecimento que me é útil ainda agora.

O drama do estudo não tinha acabado, já que meu pai tinha o péssimo hábito de mudar de casa e até de cidade com uma freqüência absurda. Sempre era uma luta enorme para conseguir vaga numa outra escola. Houve vez que não deu tempo de pedir transferência e perdemos o ano escolar. Para se ter idéia de quão freqüentes eram as mudanças de casa, a partir da idade em que eu pude contar, mudamos não menos que 33 (isso mesmo, trinta e três) vezes. Isso, dos meus cinco aos vinte e um anos de idade. Obviamente, à medida que ia ficando mais velho, ia podendo contornar um pouco melhor a situação.

Como o brasileiro tem o hábito doentio de usar palavras e expressões em inglês, deparei-me com essas coisas ainda aos quinze anos de idade. Intrigado com o que aquelas palavras pudessem significar, comprei um livro de inglês usado. Já ia aprendendo bem lá do meu jeito, quando conheci o pastor Donald G. Fall, que era um bom homem e me ajudou com o inglês. Ele morava em Mundo Novo - MS - Brasil. Quando o vi pela primeira vez, ele arrancava ervas daninhas de seu quintal com as mãos. Eu já tinha meu rádio gravador, mas estava sem dinheiro. Então, me propus a arrancar o mato do quintal dele em troca de ele ler dois ou três pequenos textos do livro para gravar com o meu rádio gravador. Ele me disse que deixasse o livro e o gravador e que voltasse no outro dia para o serviço. Daí, ele me fez duas surpresas. Primeira, quando cheguei para o serviço combinado, já não havia mato algum no quintal dele. Ele me disse que eu não ia pagar nada e que arrancar o mato era uma terapia para ele. Quando saía, convidou-me a ir à igreja dele. A segunda surpresa foi ele ter gravado todos os textos do livro. Eu sou meio papagaio, meio gente, se escuto repito. Então, isso foi um grande avanço para mim no estudo da língua inglesa. Nós nos mudamos de cidade logo depois e a última coisa que soube de Donal Fall é que ele foi para Fresno, Califórnia, EUA.

Mais tarde, depois de empregos como ensacador de arroz em uma empresa de beneficiamento de cereais. Entrei em uma empresa de ônibus como aprendiz de lanternagem (todo tipo de serviço de reparo de lataria dos ônibus). Engraçado que, pelo Brasil a fora, essa profissão muda de nome: funileiro e latoeiro, por exemplo. Mas o que importa é que lá eu tive noção de solda elétrica, solda a oxigênio, pintura, tapeçaria e fibra de vidro (fiberglass). Vindo, mais tarde, a me destacar nessa última área. De lá saiu o meu primeiro modelo de ônibus, um Paradiso da Marcopolo.

Eu passava boa parte do horário de almoço soldando a estrutura de ônibus com a ainda escassa experiência com solda elétrica. Sempre voltava para casa com os olhos ardendo por causa da luz intensa proveniente da queima do eletrodo. Eram chapas finas, que eram difíceis de serem soldadas com uso de máscara de proteção. A miniatura era uma coisa de 1,60m de comprimento, que eu mantinha escondido debaixo de um ônibus de verdade. O pessoal da chefia não tinha conhecimento da peça inusitada que, embora não consumisse muitos eletrodos e fosse de retalhos de chapa que tinha o lixo como destino, poderia me custar o emprego. Ainda mais que eu já tinha conquistado minha primeira promoção no trabalho. Passara a ganhar um pouco mais de um salário mínimo. Para quem só tinha seis meses no emprego, eu tinha abusado. Eu pretendia mostrar o trabalho secreto somente quando estivesse pronto. Eu sabia que não era certo, mas pensei que eles não se importariam muito. Mantinha o chassis num lugar e a carroceria em outro. Não daria tanta impressão do estrago. Quando ficasse pronto, eu poderia pagar pelos materiais utilizados.

Eu não tinha muita noção de como realmente era o chassis do Volvo B-58 trucado, mas aí está o que eu pude captar. Hoje existe a Internet para tudo quanto é tipo de pesquisa, mas aqueles foram os anos 80.

 

 

 

 

 

 

Era uma geringonça tão pesada, que eu (17 anos) e meu irmão (14 anos) sofremos para carregar a carroceria até em casa. Na foto se pode notar que o eixo dianteiro parece estar arqueando, tanto era o peso que ele tinha de suportar.

 

   

 

 

Consegui manter oculto, por algum tempo, o meu Paradiso de retalhos de chapa. Entretanto, um dia, alguém lá da empresa, mordendo-se de curiosidade e desejo de me ver mal, conseguiu, dissimuladamente, levar o pessoal da chefia até a minha criatura estranha. Ele, propositadamente, derrubou uma chapa de aço que cobria digamos "a coisa". Acho que foi logo no dia seguinte, quando fui chamado à matriz da empresa para falar com o patrão. Bem sabia eu o que poderia advir. Mas eis que o inesperado, às vezes, acontece, pois ele gostou tanto da minha habilidade com detalhes, que me deu uma promoção com condições de trabalho muito mais favoráveis do que eu podia esperar àquela época. Em verdade, o que penso é que ele viu que eu conseguia reproduzir alguns detalhes das peças de fibra de vidro (fiberglass) e achou que me sairia bem nesse tipo de trabalho. O salário praticamente triplicou. Ainda hoje me pego pensando que, nos dias que se seguiram, gostaria de ter visto a cara do autor da delação. Há vezes que, quem nos quer derrubar, balança-nos de tal modo que ao buscarmos equilíbrio, acabamos saltando adiante do ponto que pretendíamos atingir. Não posso dizer que as coisas foram muito fáceis a partir desse ponto, mas sei houve significativa melhora.

 

 

Então os dias se seguiram, vagarosamente, um após o outro. O sol, às vezes, se ia triste, manchando o céu de matizes. Mas sempre deixava no ar um tom de esperança. Era um ponteiro para o futuro. Ainda hoje continua sendo.

Naquele tempo, eu morava numa cidade pequena e tranqüila. Pelo que me lembro, havia apenas duas avenidas asfaltadas. O resto era poeira e buracos. Hoje, mais de 20 anos depois, o progresso trouxe muitas mudanças. Mas o tempo atesta também que já não sou aquele jovem de antigamente. Ouvi em algum lugar que o que conta mais não é a idade, mas a quilometragem. Deve ser verdade.

Daqueles tempos até hoje, já passei por muitas profissões como lanterneiro, professor de línguas inglesa e portuguesa, intérprete de língua inglesa, técnico em eletrônica, programador de computadores e técnico de hardware. Já trabalhei muito sem me preocupar com dinheiro e sempre o consegui bastante para uma vida modesta, mas com alguma satisfação. Trabalho como autônomo e não ganho tão mal. No Brasil, principalmente na região em que moro, não há quase nenhuma empresa, na área que trabalho, que pode pagar um salário que vai me satisfazer, sem causar perturbações ao seu pessoal e salários. Mas eu não estou falando sobre um salário muito bom, que não é tudo o que importa. É preciso se sentir confortável no trabalho e ficar satisfeito com o que se faz. Eu procuro trabalhar tanto mais honestamente quanto possível e tenho orgulho do que faço. Pois a dignidade é a bandeira de cada pessoa, por isso é bom que ela não vá a meio-mastro.

Preocupo-me muito com as pessoas que me cercam e procuro, com esforço até, dedicar algum tempo ao lazer. A verdade é que, em passando o tempo, a gente passa a economizá-lo. Planejo muito as coisas e defino hora para quase tudo. Mas nem tudo, que a gente não pode ser escravo do relógio. Com tantos projetos na mente, fica difícil definir prioridades. O jeito é ir fazendo um pouco um, um pouco outro. A idéia principal para mim é a de que o indivíduo deve sempre procurar estar contente consigo mesmo, mas nunca acomodar-se com a situação em que sem encontra, se puder alcançar outra melhor. Hoje, não posso dizer que já venci todas as minhas principais dificuldades e estou muito bem, as pessoas que me conhecem de perto sabem que isso ainda está muito longe de acontecer. Mas a vitória é feita sobrepondo pequenas etapas de cada vez.

Tenho recebido muitos elogios pelo que faço. Mas os elogios me fazem pensar que estou melhorando, enquanto as críticas me mostram exatamente aonde tenho errado. Assim sendo, gosto também de receber críticas. Todavia, o trabalho que não é elogiado e nem criticado está fadado ao fracasso.

Só o trabalho constrói. (minha frase predileta e de muito efeito)

É preciso inovar. É preciso romper as ataduras que prendem o ser pensante aos mourões do caótico sistema atual de coisas. Ivan Gouveia

 

 

 

Ivan Gouveia

Pós-graduado em Redes de Computadores pela FACIMED - Faculdade de Ciências Biomédicas de Cacoal. Graduado em Tecnologia da Informação pela UNESC - União das Escolas Superiores de Cacoal. Tem CCNA (Cisco) como curso complementar de Redes de Computadores. Profissional da área de Eletrônica e de Programação de Computadores. Programador nas linguagens Delphi e Visual Basic.